terça-feira, 20 de janeiro de 2015

E eu que queria ser Alvaro de Campos

A nossa vida é uma estrada por onde trafegam muitas pessoas, entre estas tem aquelas que nos acrescentam muito, mesmo sem saber que fazem isto. Em minha vida uma destas pessoas foi o Evandro da maternidade, passei apenas 6 meses em sua presença, e aprendi sobre mim mais do que havia aprendido comigo mesma em 18 anos.
Todos os dias na maternidade ele me observava. Observava como eu reagia a todas as situações, como eu falava, quando eu falava, onde sentava e como me portava, sendo assim como consequência formulava teorias ao meu respeito (era difícil de acreditar que lhe ocorria passar todo o seu tempo fazendo estas coisas), certas teorias eram tolas, mas outras faziam sentido. Certa vez, ele chegou a mim e disse que o meu tom de voz era o mais baixo de todos do laboratório pois eu queria chamar atenção, se eu falo baixo, logo todos parariam para escutar. Eu nunca havia pensado nisso, na verdade era pura timidez, o fato era que realmente quando eu falava era bem difícil que outra pessoa falasse junto comigo.
Algumas teorias do Evandro ajudavam a compreender-me, em uma outra ocasião ele disse-me que eu era um amontoado de sensações que não era expressado, e que isso fazia com que eu gostasse de muitas coisas, claro que isso tinha um lado bom, mas é claro que tinha um lado ruim, como por exemplo a escolha de uma profissão.
O fato de eu amar muitas coisas, me deixa confusa, aflita, me deixa em conflito comigo e com tudo que me rodeia, principalmente com as pessoas. Amar muitas coisas faz de mim uma pessoa com muitos começos e poucos finais, e isso me torna aflita, e é por este motivo que eu queria ser Alvaro de Campos, por adorar todas as coisas, e ser um engenheiro (ele, engenheira, eu) angustiado. "Apesar de não ser nada, [...] possuo todos os sonhos do mundo"- Tabacaria. Possuo todos os sonhos, quero todas as coisas, "amo todas as coisas, amo tudo, animo tudo". Quero estar sozinha e ao mesmo tempo não, quero expor minhas ideias e quero rete-las. Quero poder não mais rotular pessoas e situações, queria perder o desejo de possuir coisas e pessoas, aliás, queria poder me convencer de que consumir não é bom. Queria poder me interessar mais por política sem julgar o meu país como infantil assim que começo a pesquisar sobre. Queria poder tocar violão (pra valer), queria poder ter alguém para conversar meus tipos de músicas. Queria poder dizer minhas confissões de Brás, para ele era fácil confessar aquelas coisas, pois estava morto, eu estou viva, ou talvez acho que estou. Eu queria poder parar de duvidar de Deus e achar que Ele é motivo suficiente para eu ter uma razão na vida, mas na verdade a vida me dá 1000 motivos para que ela tenha uma razão, mas no minuto seguinte me dá 1001 motivos para que ela não tenha razão alguma; mesmo que às vezes pareça que ela não tenha razão, eu "tenho pela vida um interesse ávido". Eu gosto de pertencer a MPB, ao samba, ao Rap, ao antigo, ao novo, ao realista, ao romântico, ao popular, ao erudito, sim, "eu pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio", mesmo que isso pareça ilógico e talvez seja, mas a lógica talvez seja relativa, quem estabelece a norma?
De fato, eu adoro todas as coisas da vida, mas a vida... "A vida é uma grande feira, e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisso, enterneço-me, mas não sossego nunca".